Política

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Boris apresenta candidatura: “Parece que caem pedaços do teto quando falo mas as pessoas estão fartas de políticos que diluem o que dizem”

Boris Johnson já apresentou oficialmente a sua candidatura à posição de líder dos conservadores – coisa que, se vencer, fará dele também primeiro-ministro do Reino Unido. E o dia começou logo com uma forte carga publicitária. Segundo a Press Association, os jornalistas que chegavam ao almoço organizado por Boris tinham as opções de “Sandes Boris” ou “Ovos Benedict do Boris“, além de terem sido encorajados por membros da equipa do ex-ministro dos Negócios Estrangeiros a usar crachás com a frase “Apoiem o Boris“.

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O favorito para suceder a Theresa May começou por falar da “resiliência” do país, que “apesar de tudo”, está “a fazer crescer a economia”. O Banco de Inglaterra diz que a economia de facto contraiu nos últimos três meses e que a produção automóvel encolheu para níveis de há 17 anos mas o que Boris quis dizer, segundo os analistas, é que o Brexit não trouxe a tal antecipada tempestade económico-financeira. Mas também ainda não aconteceu – e Boris quer que aconteça: de uma vez e sem desculpas para mais um adiamento.

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Logo depois do argumento económico – prioridade número um dos britânicos em consecutivas análises das empresas de sondagens – Boris passou para o tema que fez dele uma estrela: a luta pela saída da UE. “Chegou a hora de unirmos o país, a sociedade, mas não podemos começar a fazer isso até termos dado às pessoas aquilo que é a sua principal exigência: três anos e duas datas depois, que falhámos, temos mesmo de sair da UE dia 31 de outubro.” Quem entende de negociações com a UE diz que este é um prazo irrealista. O ministro das Finanças, Philip Hammond, espera que os “candidatos como Boris” tenham oportunidade de “ver por eles mesmos” que “a UE não vai reabrir as linhas de negociação”. E a tal saída sem acordo também não lhe parece provável porque “o Parlamento não vai mudar de posição e passar a concordar com um ‘no deal”.

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Ver Twitter Conhecido pelo seu desejo de fechar para sempre este capítulo da história recente do Reino Unido, Boris optou, porém, por mostrar a sua preferência por uma saída com alguma espécie de acordo comercial com o bloco de 500 milhões de consumidores que constituem a UE. “Não estou à espera de um ‘no deal’ mas a atitude mais responsável é preparar-nos para tal, séria e vigorosamente”, disse Boris que, logo a seguir, decidiu avançar uns pontos do seu putativo manifesto eleitoral (talvez já a acautelar a queda do Governo e nas eleições gerais que se seguiriam): “É preciso encurtar as diferenças entre o norte e o sul e para isso temos que construir infraestruturas”. Depois disto lembrou o seu trabalho como presidente da Câmara de Londres mas o Brexit voltou rapidamente ao centro da conversa. “Um atraso quer dizer uma derrota e uma derrota significa Jeremy Corbyn”, disse o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros acenando com o medo de um governo liderado pelo número um dos trabalhistas. “Corbyn está mais à esquerda do que Ken Livingstone [ex-’mayor’ de Londres que perdeu duas vezes para Boris] e as coisas que ele defende são um ataque aos nossos valores”, acrescentou.

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Ver Twitter Nas seis perguntas que permitiu no fim do seu discurso, Boris voltou a afirmar que não é a favor de uma saída desordenada e prometeu que vai falar com os parceiros europeus “da forma mais amigável possível”, esperando uma “resposta simétrica” do outro lado. A pergunta do editor de política do “Financial Times” relembra uma tirada antiga de Boris quando usou a expressão “que se lixe o comércio” quando questionado sobre o impacto que o Brexit poderia ter na indústria britânica. Boris respondeu com vários elogios aos jornalistas – “eu tenho a app” – e com generalizações – “nem toda a gente que trabalha nos serviços financeiros tem muito dinheiro – mas não chegou a explicar por que razões disse aquela frase. Prometeu, isso sim, “vender” o Reino Unido lá fora

Uma outra pergunta foca-se no carácter de Boris, se ele é ou não uma pessoa confiável já que são inúmeros os exemplos de frases suas que podem ser consideradas ofensivas: “que se lixe o comércio” é uma mas há mais graves, como a caracterização que fez das mulheres muçulmanas: no seu entender “são como marcos do correio”, por andarem cobertas de negro. “Às vezes parece que cai cal do teto quando eu falo mas as pessoas sentem-se alienadas da política porque pensam que os políticos estão a esconder e a diluir e o que dizem”, afirmou Boris que prometeu continuar a ser “tão direto quanto possível”